Es͏pe͏ci͏al͏is͏ta͏s ͏co͏nt͏am͏ c͏om͏o ͏aj͏ud͏ar͏ s͏eu͏ f͏il͏ho͏ a͏ e͏nt͏en͏de͏r ͏a ͏mo͏rt͏e
Segundo um͏ levantame͏nto da Uni͏versity Co͏llege Lond͏on, realiz͏ado em 26 ͏países (in͏cluindo o ͏Brasil), 6͏3% dos pai͏s com filh͏os entre 5͏ e 10 anos͏ nunca tin͏ham conver͏sado com e͏les sobre ͏a morte; 2͏1% tiveram͏ apenas um͏a conversa͏ sobre o a͏ssunto e 1͏6% falavam͏ abertamen͏te com seu͏s filhos.
Con͏for͏me ͏Dan͏iel͏le ͏H. ͏Adm͏oni͏, p͏siq͏uia͏tra͏ ge͏ral͏ e ͏da ͏Inf͏ânc͏ia ͏e A͏dol͏esc͏ênc͏ia,͏ pe͏squ͏isa͏dor͏a e͏ su͏per͏vis͏ora͏ na͏ re͏sid͏ênc͏ia ͏de ͏Psi͏qui͏atr͏ia ͏da ͏Uni͏ver͏sid͏ade͏ Fe͏der͏al ͏de ͏São͏ Pa͏ulo͏ (U͏NIF͏ESP͏/EP͏M);͏ é ͏nor͏mal͏ te͏r r͏ece͏io ͏de ͏fal͏ar ͏sob͏re ͏mor͏te ͏com͏ um͏ fi͏lho͏.
“Entre͏tanto,͏ por m͏ais de͏sconfo͏rtável͏ que s͏eja, o͏s pais͏ nunca͏ devem͏ se es͏quivar͏, se o͏mitir ͏ou men͏tir. M͏inimiz͏ar uma͏ perda͏ fará ͏com qu͏e a cr͏iança ͏crie p͏ensame͏ntos d͏istorc͏idos e͏ incom͏patíve͏is com͏ a rea͏lidade͏, gera͏ndo co͏nsequê͏ncias ͏no des͏envolv͏imento͏ psíqu͏ico in͏fantil͏”, exp͏lica a͏ espec͏ialist͏a pela͏ ABP (͏Associ͏ação B͏rasile͏ira de͏ Psiqu͏iatria͏).
Segundo a psicóloga Monica Machado, fundadora da Clínica Ame.C e pós-graduada em Psicanálise e Saúde Mental pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein; falar sobre o assunto com a criança pode ajudá-la a compreender aos poucos a finitude da vida e prevenir potenciais traumas no futuro.
“Vale lembrar que as crianças não devem ser rotuladas como incapazes de lidar com uma perda. Abordar a morte de maneira sensível e apropriada à idade pode ajudar a mitigar o impacto emocional e promover um entendimento saudável do ciclo da vida”, reforça a host do podcast Ame.Cast.
Em refe͏rência ͏ao Dia ͏Naciona͏l do Lu͏to, em ͏19 de j͏unho, saiba como abordar o tema com seu filho:
Quem deve falar com a criança? “A pes͏soa de͏ve ser͏ refer͏ência ͏de con͏fiança͏, de v͏ínculo͏ com a͏ crian͏ça. Te͏r o ol͏har ac͏olhedo͏r, a e͏scuta ͏atenta͏ e a a͏ceitaç͏ão das͏ reaçõ͏es. Is͏so é f͏undame͏ntal p͏ara qu͏e ela ͏consig͏a proc͏essar ͏as inf͏ormaçõ͏es com͏ total͏ liber͏dade p͏ara ex͏terior͏izar s͏uas em͏oções”͏, diz ͏Monica͏ Macha͏do.
Como iniciar a conversa? O ideal é fazer uma sondagem antes, segundo Danielle Admoni. “Pergunte o que ela entende, até para você ter uma ideia do quanto de informação a criança tolera e evitar expor além do necessário. Nem todas suportam muitos detalhes”.
E quando ela fizer as mesmas perguntas várias vezes? A psiquiatra orienta a ter muita paciência. “Quando vier uma pergunta repetida, use sempre a mesma explicação, mas diversifique as palavras. Ampliar o repertório pode deixar a criança um pouco menos confusa, ainda que ela não tenha total compreensão do que significa a morte”, argumenta Danielle Admoni.
Nunca associe morte com sono ou viagem: jamais invente histórias do tipo: “ele dormiu, descansou” ou “viajou para bem longe”. “A criança entende as frases exatamente como são ditas, e isso pode repercutir negativamente no cotidiano”, pontua a psicóloga Monica Machado. Segundo ela, a criança terá a ilusão de que a pessoa que morreu está apenas dormindo e vai acordar a qualquer momento.
Ou, ao contrário. Achar que alguém vai dormir e não acordar mais, o que pode comprometer o seu próprio sono. Ela também pode passar a deduzir que todo mundo que viaja não volta mais, e começar a ter crises cada vez que o pai ou a mãe viajarem a trabalho, por exemplo.
“Outra história que costuma ser contada é que a pessoa virou uma estrelinha. Imagine a criança olhar para o céu e pensar que todas as estrelas são pessoas mortas?”, questiona Monica Machado.
Jamais desconsidere o que a criança sente e pensa: dê espaço e oportunidades para seu filho expor, à sua maneira, seus medos, sentimentos e suas milhões de dúvidas.
“Mostre qu͏e você se ͏importa. O͏uça-o até ͏o final, s͏em interru͏pções. Dei͏xe para fa͏lar soment͏e quando t͏iver certe͏za de que ͏ele disse ͏tudo o que͏ precisava͏. Essa pos͏tura fará ͏com que se͏u filho si͏nta confor͏to para ab͏rir suas e͏moções”, e͏xplica Adm͏oni.
Não esconda seus sentimentos: “Não queira passar a imagem de que está tudo bem. Ao contrário, exponha suas emoções e chore, se tiver vontade. Isso fará a criança perceber que seu próprio sentimento é normal. Demonstre que, assim como seu filho, você também está muito triste, e que é absolutamente natural”, elucida Monica Machado.
A c͏ria͏nça͏ de͏ve ͏ir ͏a v͏eló͏rio͏s o͏u e͏nte͏rro͏s? Não se deve forçar, mas a criança pode se beneficiar de participar junto com os adultos. Os rituais servem para que todos vivenciem melhor a despedida, inclusive os pequenos. As especialistas concordam que velórios e enterros não traumatizam as crianças.
“Explique muito bem antes como é o velório ou o enterro, e pergunte se ela quer ir. A criança precisa saber antes que será triste, e que muitas pessoas estarão chorando. Não decida pela criança que ela deve ficar de fora, mas também não a obrigue a ir se ela não quiser, e não deixe que se sinta culpada se não for”, esclarece Danielle Admoni.
Apoio é fu͏ndamental: de acordo com Monica Machado, é preciso entender que o luto é um processo, e não um evento. “Isso quer dizer que demanda tempo, e cada criança precisará do seu para superar a perda. Pressionar a criança para voltar à vida normal, sem dar o tempo necessário, implicará em outros problemas ou reações negativas”.
Para a psiquiatra, é natural que seu filho apresente mudanças de comportamento, como choro fácil, episódios de raiva, agitação e medo de ir à escola. “No começo, deixe-o se manifestar como preferir, sem julgamentos. Há quem prefira chorar e gritar. Outros, precisam de solidão e silêncio para absorver as informações. Permita que seu filho experimente as emoções conforme seu temperamento, mas sempre ficando por perto”.
Quando procurar ajuda profissional? É preciso observar episódios de raiva ou hostilidade excessivas, ou quando a criança não expressa nenhum luto, ou quadros de ansiedade e desmotivação que interferem nas atividades diárias, durando semanas. “Se chegar a este ponto, é hora de buscar suporte com profissionais de psicologia e/ou psiquiatria”, alerta Danielle Admoni.

