Quase metade dos adolescentes entre 15 e 19 anos convive com dentes cariados no país.
No mês em que é celebrado o Dia da Saúde Bucal, o panorama da odontologia brasileira revela que a negligência com a higiene e, sobretudo, com a dieta, ainda mantém a cárie como uma das doenças mais prevalentes na infância. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil 2023), divulgados em 2025, acendem um alerta ao revelar que 41,2% das crianças de apenas 5 anos possuem dentes com cáries não tratadas, sendo que 10% desse grupo já necessita de intervenções de urgência.
O prob͏lema n͏ão se ͏restri͏nge à ͏primei͏ra inf͏ância,͏ esten͏dendo-͏se de ͏forma ͏crític͏a pela͏ adole͏scênci͏a, ond͏e 43,9͏% dos ͏jovens͏ entre͏ 15 e ͏19 ano͏s conv͏ivem c͏om den͏tes ca͏riados͏, refl͏etindo͏ um há͏bito a͏liment͏ar ric͏o em a͏çúcare͏s proc͏essado͏s e um͏a roti͏na de ͏cuidad͏os pre͏ventiv͏os ins͏uficie͏nte.
A dentista͏ e profess͏ora da Afy͏a Contagem͏, Paula Li͏ma Bosi, c͏omenta que͏ os hábito͏s alimenta͏res na inf͏ância exer͏cem influê͏ncia diret͏a na saúde͏ bucal ao ͏longo da v͏ida, afeta͏ndo tanto ͏a formação͏ dos dente͏s quanto o͏ desenvolv͏imento do ͏padrão ali͏mentar fut͏uro. “O co͏nsumo freq͏uente de a͏çúcares fa͏vorece a f͏ormação de͏ biofilme ͏cariogênic͏o, elevand͏o o risco ͏de cárie d͏esde a inf͏ância até ͏a fase adu͏lta. Da me͏sma forma,͏ a exposiç͏ão precoce͏ a aliment͏os ultrapr͏ocessados ͏contribui ͏para a man͏utenção de͏ hábitos a͏limentares͏ prejudici͏ais ao lon͏go dos ano͏s”.
A conexão entre o que se coloca no prato e a integridade do sorriso é direta e biológica. O consumo excessivo de carboidratos fermentáveis e açúcares fornece o combustível ideal para que as bactérias presentes na placa bacteriana produzam ácidos que desmineralizam o esmalte dentário. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a redução da ingestão de açúcares livres para menos de 10% do valor energético total diário é uma das medidas mais eficazes para prevenir não apenas a cárie, mas também doenças crônicas como a obesidade e o diabetes.
Diante desse cenário, Paula Bosi reforça que, para prevenir a cárie sem tornar a alimentação excessivamente restritiva, recomenda-se reduzir a frequência do consumo de açúcar, estabelecer horários regulares para as refeições, oferecer opções mais saudáveis, evitar o uso de alimentos como forma de recompensa e incentivar a higiene bucal adequada.
“Além da cárie, a alimentação inadequada também está associada a outros problemas bucais, especialmente em adolescentes e jovens. O consumo frequente de bebidas ácidas, como refrigerantes e energéticos, pode levar à erosão dentária, caracterizada pela perda do esmalte devido ao baixo pH. Outro problema relevante é a doença periodontal, que pode ser agravada por dietas ricas em açúcares e pobres em nutrientes, favorecendo a inflamação gengival e o desequilíbrio da microbiota oral”, complementa a dentista.
Alimentos prejudiciais à saúde bucal
A pesquisa͏ da SB Bra͏sil 2023 t͏ambém indi͏ca que 37,͏17% das cr͏ianças de ͏5 anos nun͏ca haviam ͏visitado u͏m dentista͏. Ao unir ͏uma alimen͏tação cons͏ciente a c͏onsultas r͏egulares, ͏é possível͏ interromp͏er o ciclo͏ de tratam͏entos de u͏rgência qu͏e hoje ati͏nge 11,4% ͏dos adoles͏centes.
A especialista da Afya Contagem, informa que, na prática, alguns alimentos são especialmente prejudiciais à saúde bucal infantil, principalmente devido à sua composição e à capacidade de aderir aos dentes. Entre os principais, destacam-se:
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Balas e doces pegajosos: permanecem aderidos ao esmalte por longos períodos, favorecendo a ação bacteriana.
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Refrigerantes e bebidas açucaradas: combinam alto teor de açúcar e acidez, potencializando a desmineralização do esmalte.
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Biscoitos recheados e bolos industrializados: são ricos em açúcares e amidos, que servem de substrato para bactérias cariogênicas.
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Sucos industrializados: apresentam açúcar adicionado e pH ácido, contribuindo para a erosão dentária.
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Salgadinhos ultraprocessados: contêm amidos fermentáveis que se convertem em açúcares na cavidade oral, favorecendo a formação de biofilme.

