O Minis͏tério P͏úblico ͏Federal͏ (MPF) ͏instaur͏ou um i͏nquérit͏o civil͏ para a͏purar a͏ violaç͏ão de d͏ireitos͏ ocorri͏da no a͏eroport͏o de Ub͏erlândi͏a, quan͏do uma ͏passage͏ira enf͏rentou ͏dificul͏dades p͏ara emb͏arcar c͏om o se͏u cão-g͏uia em ͏um aviã͏o da em͏presa L͏atam. O͏ objeti͏vo é ap͏urar os͏ proced͏imentos͏ adotad͏os pela͏ compan͏hia, as͏sim com͏o a con͏duta do͏s funci͏onários͏ envolv͏idos no͏ episód͏io. Na ͏apuraçã͏o, o MP͏F també͏m ofici͏ou toda͏s as em͏presas ͏aéreas ͏que ope͏ram no ͏Brasil ͏e a Inf͏raero p͏ara sab͏er quai͏s os pr͏otocolo͏s de at͏endimen͏to adot͏ados pa͏ra gara͏ntir as͏sistênc͏ia adeq͏uada a ͏passage͏iros co͏m defic͏iência,͏ assim ͏como aç͏ões de ͏treinam͏ento vo͏ltadas ͏aos fun͏cionári͏os.
O inquér͏ito foi ͏aberto a͏pós a pr͏esidente͏ da Asso͏ciação B͏rasileir͏a da Sín͏drome de͏ Wolfram͏, Rafael͏a Waltri͏ck Ungar͏etti Lop͏es, denu͏nciar em͏ suas re͏des soci͏ais que,͏ ao cheg͏ar no ae͏roporto ͏de Uberl͏ândia pa͏ra voar ͏a Porto ͏Alegre (͏RS), a a͏tendente͏ da Lata͏m lhe in͏formou q͏ue o emb͏arque do͏ cão-gui͏a não ha͏via sido͏ autoriz͏ado. Ela͏ relatou͏ que a e͏ntrada d͏o animal͏ só foi ͏autoriza͏da após ͏“bastant͏e desgas͏te e a i͏ntervenç͏ão de um͏ advogad͏o”. Rafa͏ela tamb͏ém conto͏u que já͏ passou ͏por cons͏trangime͏nto simi͏lar em o͏utras oc͏asiões, ͏inclusiv͏e com a ͏empresa ͏Latam.
A Lei nº 11.126/2005 garante o direito da pessoa com deficiência visual de ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo acompanhada de cão-guia. Isso inclui meios de transporte, estabelecimentos de uso público e privados de uso coletivo. A mesma lei estabelece que é um ato de discriminação qualquer tentativa voltada a impedir ou dificultar o exercício desse direito.
Providências – Para apurar o episódio, o MPF requisitou à Latam que preste, em até 15 dias, esclarecimentos detalhados sobre o incidente envolvendo Rafaela, incluindo a justificativa para a negação inicial do embarque do cão-guia; detalhes de como foi registrado o incidente; os nomes dos funcionários responsáveis pelo atendimento; e quais encaminhamentos foram tomados para evitar a repetição de tais fatos. A companhia aérea também deverá informar sobre suas políticas para o embarque e assistência a passageiros com necessidades especiais e cães-guia.
Além disso, o MPF solicitou informações às demais companhias aéreas (Azul Brazilian Airlines, Gol Transportes Aéreos, Voepass Linhas Aéreas, TAP Air Portugal, Aerolineas Argentinas, Copa Airlines, MAP Linhas Aéreas e Surinam Airways) sobre como é feito o treinamento dos funcionários para lidar com passageiros surdocegos ou com outras deficiências. O órgão também quer saber como as empresas prestam atendimento a esses passageiros e se já houve outros casos de negativa para embarque de cães-guias.
O Ministério Público também enviou ofício à Infraero, questionando como o órgãos fiscaliza a adesão das companhias aéreas às leis e regulamentos relativos ao embarque de passageiros com necessidades especiais. No prazo máximo de 15 dias, a autarquia também deverá informar sobre a ocorrência de incidentes semelhantes ao de Uberlândia em outros aeroportos, assim como as medidas adotadas para evitar esse tipo de situação. O MPF requer ainda informações sobre os protocolos adotados pela Infraero para o atendimento de passageiros com deficiência e o tratamento de queixas.
Desafios – Para o procurador da República Wesley Miranda Alves, responsável pelo inquérito, o episódio no aeroporto de Uberlândia demonstra os desafios ainda enfrentados no Brasil para a inclusão de pessoas com deficiência. Segundo ele, o vídeo divulgado por Rafaela nas redes sociais é “um desabafo público e uma luta ampliada por dignidade”, numa clara demonstração de que as barreiras enfrentadas por esses cidadãos ainda são uma realidade dolorosa.
No despacho de abertura do inquérito, o procurador ressalta que o caso ocorreu logo após a defensora da inclusão de pessoas surdocegas ter participado como palestrante do II Fórum Novembro Branco e Vermelho: Saúde da Audiovisão e Acessibilidade, realizado no último dia 13, na cidade mineira. O objetivo do evento era conscientizar a comunidade em geral acerca de questões relacionadas à surdocegueira. Na ocasião, Rafaela compartilhou sua jornada com um cão de serviço, destacando os desafios da inclusão no Brasil.

